Experiências Que a Organização Não Relatou – Cid Miranda

Copyright © 2002 Cid Miranda

Atualizado em 2021

“Por fim, irmãos, todas as coisas que são verdadeiras, todas as coisas que são de séria preocupação, todas as que são justas, todas as que são castas, todas as que são amáveis, todas as coisas de que se fala bem, toda virtude que há e toda coisa louvável que há, continuai a considerar tais coisas.” (Filipenses 4:8)

  •  A Pedagogia do “Silêncio Piedoso”

“Se aquilo que você estiver prestes a dizer, irmão, não for edificante, então NÃO DIGA”. Terminada a frase, o orador convidou a assistência a acompanhar a leitura do texto de Efésios 4:29a. no qual Paulo admoesta:

“Não saia da vossa boca nenhuma palavra pervertida, mas a que for boa para EDIFICAÇÃO…”

Depois disso, passou a descrever como “certas conversas” entre irmãos poderiam ser “corrosivas da fé ou perniciosas para a congregação”. Em seguida, acrescentou:

“os irmãos devem evitar dizer coisas que possam servir de ‘tropeço’ ou que façam um irmão ficar ‘fraco na fé’. Devem desprezar qualquer coisa que sirva de ‘mau testemunho’ aos de fora.”

Fez então uma longa pausa e, olhando de modo enigmático para assistência, em tom duro e condenatório, passou a dar exemplos de “comentários perigosos”: criticar o modo de agir dos anciãos daquela congregação ou da “organização de Deus”, reclamar do modo de agir do “escravo fiel e discreto” (comparando tal comportamento à atitude de Miriã e Arão em Números 12 quando falaram contra Moisés, servo designado de Deus), etc.

A assistência espantada, atenta e envolvida pela eloqüência daquele orador, como de costume, submetia-se mais uma vez à metodologia usada pela organização para mitigar um dos maiores pesadelos dela: o espírito “rebelde” e o “modo independente de pensar” de alguns membros.

Esse padrão se repete mundo afora. A intenção é proteger a organização das críticas contra o modo DELA e de seus representantes locais (anciãos) arbitrarem sobre os assuntos pessoais das Testemunhas em suas comunidades. Cada Testemunha é, exaustivamente, instada a sujeitar-se aos moldes dela.

O membro que critica a organização deve sofrer um “ajuste no seu modo de pensar” a de fim de se “realinhar à marcha”. Só assim ele poderá ostentar o status de “membro aprovado”, “irmão forte na fé” ou “boa associação cristã”. Dessa forma, as críticas não são bem-vindas. Um tipo de “silêncio piedoso” é incentivado de modo coercitivo.

Em suma, as Testemunhas de Jeová podem falar da organização, sim, mas apenas de seus aspectos “edificantes e positivos”… a menos que queiram ser mal vistos pelos seus “irmãos”. Esse é, também, um método de controle da grande perda de membros que ela sofre em vários países no momento.

Essa lei de “silêncio piedoso” e reverência à organização é praxe de sistemas repressivos, um método caduco usado por regimes totalitários. Na organização, essa repressão à liberdade de expressão recebe um apelido respeitoso: “sujeição à direção teocrática!”

Visto que os membros só devem falar de coisas que sirvam para glorificar a organização, exaltando-a como a “única, verdadeira e pura”, entende-se que é “desaconselhável” (=proibido) criticar os “arranjos teocráticos” locais, também. Conseqüentemente, fica adicionado à essa ditadura poderosa, um ingrediente essencial: problemas sérios são varridos para debaixo do tapete para evitar “vitupérios para o nome de Deus” (Deus = organização). Para o consumo externo, apenas o lado bom, positivo e que trouxer louvor para a organização deverá ser exposto. (Mateus 23:27) Enquanto isso, ela mesma jamais perderá uma oportunidade de julgar e condenar outras religiões e seus clérigos (Mateus 7:1-5). As Testemunhas fazem isso com orgulho, na convicção de que estão “na verdade”.

No entanto, é sabido que em toda religião há a banda boa e a banda podre, os enganados e os enganadores, os bons e os maus. Essa ideia é corroborada pelo testemunho da própria história bíblica. Relatos como o de Paulo em 1 Cor. 5:1, mostra-nos que mesmo nas primitivas congregações cristãs havia pessoas iníquas; o joio convivia ao lado do trigo. Jesus disse que pelos frutos reconheceríamos os seguidores dele (João 15:8) mas ele não mencionou que tais pessoas só poderiam ser identificadas numa única organização ou instituição religiosa, ainda que alguma no futuro fizesse tais alegações fervorosas de “serviço fiel” a ele (Mateus 7:21-23). Assim, deduz-se claramente que indivíduos fiéis poderiam ser achados nas religiões do mundo (Atos 10:34, 35}

Os cristãos primitivos tentaram não servir de “causa de tropeço” para outros, mesmo diante de tribulações e dificuldades – 2 Cor. 6: 3-10. Mas uma coisa é não servir de tropeço quando na defesa das coisas sagradas (1 Cor. 15:58; Mateus 18:6-7) e uma outra bem diferente é quando na defesa de interesses de homens que impõem que todos devem obedecê-los como se estivessem obedecendo ao próprio Deus Altíssimo. (Veja Gálatas 1:6-12; Salmos 146:3)

  • É Hora de Falar

A fim de fornecer mais combustível (zelo/apreço) ao “serviço fiel à organização visível de Deus”, é muito comum antes de congressos e assembleias, os oradores prepararem membros com uma folha de serviço leal à organização para contar alguma “experiência edificante” pertinente a temas de discursos públicos prontos. A finalidade é que todos sigam exemplos de fé, garantindo para si mesmos “ricas bênçãos e a aprovação de Jeová, Deus”. Esses relatos são seguidos de estrondosos aplausos e lágrimas de emoção.

A maioria dessas experiências tratam de “vitórias espirituais” ou de como alguns superaram empecilhos para aumentar seu desempenho e dedicação. Nessas experiências, as verdadeiras causas das dificuldades, que são essencialmente frutos de interpretações particulares da Bíblia ou meras imposições humanas recebidas como “alimento espiritual”, passam completamente despercebidas.

Essa é a hora de falar, de chorar de emoção, de aplaudir… e de tomar bons sustos! É que, muitas vezes, algumas Testemunhas ficam atordoadas quando vêem certos “irmãos” subirem à tribuna para relatar “fantásticas experiências” sobre algum ponto em que eles mesmos falham insistentemente em suas comunidades. Ora, “Como pode a irmã X, relapsa como mãe/dona-de-casa, ou o irmão Y que é tão falho como genitor/cônjuge, filho/filha, estudante ou profissional, etc, estar ali cheio de moral para falar?” Mas mesmo diante de tal constatação, a filosofia de que se “coloque tudo na conta da imperfeição”, funciona eficientemente nessas horas. Afinal de contas, dizem, “só a organização é perfeita; os irmãos são imperfeitos”. Mas, O QUE É UMA ORGANIZAÇÃO À PARTE DAS PESSOAS QUE A COMPÕEM? Não aconselha a Bíblia que se imite exemplos de conduta e fé em Hebreus 13:7?

  • Objetivo dessa Página

O principal objetivo dessa página é incentivar Testemunhas e ex-Testemunhas a se achegarem a pessoas que saíram para ouvir delas, suas experiências e como venceram os medos, sentimentos infundados de culpa, ameaças e intimidações da Torre. Portanto, cabe bem a pergunta: o que dizer dos relatos de pessoas que estiveram nesses mesmos congressos e assembleias, que também prestaram uma extensa folha de serviço ‘fiel’ à organização e mais tarde resolveram sair? O que as levou à decisão de sair? O que dizer do cristianismo que essas pessoas praticam hoje em dia? É ele válido para Deus? Têm tais pessoas algo “edificante” para nos contar? Ou será que os cristãos só podem ser “edificados” por meio de relatos pré-fabricados de pessoas ativas num movimento religioso como o da Torre de Vigia?

Há incontáveis relatos de pessoas reais que têm muito a nos dizer sobre a liberdade cristã sem as “obrigações teocráticas” conforme prescritas, por exemplo, na cartilha de organizações como a das Testemunhas de Jeová. Quando saem, muitos veem que tal liberdade cristã não pode mais ser entregue a ninguém ou a nenhuma religião e que, em sentido espiritual, NADA de valor perderam com a saída. Alguém certa vez gritou num discurso político inflamado: “operários nada tendes a perder a não ser seus grilhões”.

Há dezenas de grupos de whatsapp, canais na internet, vlogs, blogs, páginas e livros nos quais muitas Testemunhas de Jeová e ex-membros no Brasil relatam experiências felizes fora da organização e que são verdadeiras. Essas obviamente a organização jamais contará. São relatos incríveis de pessoas boas, sinceras, cristãs, gente comum que está muito feliz fora da org. TJ.

Por que muitos fazem questão de relatar suas experiências em vlogs, blogs, páginas, livros, etc? Para ajudar pessoas dentro e fora da organização da Torre de Vigia e de outras religiões, combalidas pelo peso do legalismo religioso e descompensadas pelos tratamentos injustos de dirigentes locais comandados como marionetes pelas hábeis mãos de suas poderosas organizações religiosas.

Por muitos anos, quando a Internet ainda não existia, alguns talvez imaginassem estar sozinhos no calvário de silêncio imposto pela Torre de Vigia, ostracizadas, ilhadas, mas agora podem se expressar e ouvir sobre outros que já passaram por “experiências” semelhantes. Podem ouvir como muitas pessoas têm “vencido dificuldades” sem o senso de obrigação a um conjunto de regras humanas (Mateus 15:9)

Agradecemos aos amigos que compartilham conosco seus medos, suas ansiedades, suas incertezas, suas lutas desiguais contínuas ainda dentro da Torre, bem como suas grandes “vitórias”, seu sucesso presente e suas perspectivas cristãs. Sem santimoniosidade, nem sentimentalismos ou pieguices, podemos dizer que Jeová Deus é testemunha de quão honestas, dolorosas ou espinhosas foram algumas dessas experiências. Imaginamos que Ele ouviu algumas delas serem sussurradas de modo humilde, cândido, sem censura ou “ensaios”, mas de coração aberto, partido ou dilacerado enquanto eram digitadas sobre um teclado molhado…

Muito mais pode ser dito para se ter um quadro melhor do que ocorre por detrás dos muros da Torre de Vigia, assim como em outras religiões que professam ser semeadoras das verdades da Bíblia. No entanto, o tempo se encarregará de nos demonstrar muito mais.

Esperamos que as “experiências” compartilhadas em todos os tipos de mídia disponíveis atualmente induzam muitas Testemunhas de Jeová reflexivas a aprender sobre os perigos do autoritarismo religioso, da manipulação de massas, dos erros e dos acertos de pessoas que um dia confiaram suas consciências ou suas próprias vidas às mãos de homens, imaginando que as estivessem entregando às mãos de Deus.

Embora tais experiências de vida Brasil e mundo afora nem sempre sejam “receitas prontas” do que outros podem fazer em suas vidas para agradar a Deus, esperamos sinceramente ajudar o leitor “temente a Deus” a continuar “esforçando-se vigorosamente para entrar pela porta estreita”, servindo somente ao soberano Senhor do universo e Criador de todas as coisas. (Lucas 13:24) Compartilhemos, juntemo-nos aos felizes e libertos que saíram e ajudemo-nos a caminhar com nossos próprios pés, não mais usando as muletas emocionais da organização. 

Em conclusão, os estilos de vida escolhidos pelas pessoas que saem são os mais diversos, pois agora são livres para fazer suas escolhas, muitas dessas baseadas unicamente em princípios bíblicos. Mas cada um deve “usar suas faculdades perceptivas treinadas para distinguir tanto o certo como o errado”, discernindo o que é válido ou não na prática do cristianismo, da adoração legítima a Deus. (Hebreus 5:14; Deuteronômio 11:26-28)

Muitas pessoas, dentre elas várias Testemunhas de Jeová, nos escrevem felizes por saber que ex-membros da organização escolheram a liberdade cristã. Há leitores que se sentem contentes de que tantas pessoas estejam a cultivar uma relação pessoal e reverente com o Criador, preferindo um modo de vida respaldado na Palavra Dele, a Bíblia sagrada, ao passo que buscam acatar o convite precioso que Ele nos faz em Isaías 1:18-19.