Sobre Médicos e Advogados… Cid Miranda

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Atualizado em 29/10/2020

A seguir, dois e-mails trocados entre William Gadelha e Paulo Franco, ex-anciãos das Testemunhas de Jeová e um trecho do livro “Em Busca da Liberdade Cristã” (capítulo 16) de Raymond Franz que fala do tópico acima.

Paulo e William estavam então numa lista de discussão com dezenas de outras pessoas, algumas Testemunhas ainda ativas da Torre enquanto outras, ex-membros que seguiram longa carreira ali dentro. A lista funcionou de maio de 1999 até 2005 e servia para amenizar o ostracismo ao qual muitas ex-Testemunhas eram (e ainda são) jogadas após a saída da organização. Portanto, os textos dos dois associados são (também) desabafos sobre as conseqüências prejudiciais da doutrinação religiosa e dos dramáticos efeitos dela nas expectativas, no modo de viver, de pensar e ser da inteira confraria TJ. Assim, tudo que você está prestes a ler baseia-se em fatos bem reais e serve para ilustrar uma centena de outros casos semelhantes nos quais a força psicológica dos ensinos da organização opera nas mentes das Testemunhas. Quanto mais “teocrática”, i.e., envolvida com tais ensinos e atitudes criadas e estimuladas pela organização, mais alienada e menos motivada se torna a mente em relação às consecuções acadêmicas, profissionais e sociais exigidas no dia-a-dia. 

Para uma TJ fiel à Torre de Vigia, não há vida fora dos portões dela. Mas já antecipando as primeiras palavras de Raymond Franz (abaixo), “quanto mais a fé da pessoa se fixa num sistema humano, seja qual for, menos espiritual se torna”.

Vamos ao assunto que estava em debate. O tema girava principalmente em torno das “profissões que não mais existiriam no novo mundo de Deus” e até onde chegavam as cogitações e interpretações humanas entre as Testemunhas…

 Por William Gadêlha:

Essa história de médicos e advogados recordou-me um episódio da minha vida como TJ.

Lá pelos meados dos anos 90, fui convidado a fazer um discurso público numa congregação do subúrbio da cidade de Fortaleza.

Um amigo Testemunha que era dessa congregação já tinha me avisado que os “irmãos” ali não viam com muito bons olhos os que tinham empregos regulares e recebiam salários regulares (a maioria deles vivia da prestação de pequenos serviços, do pequeno comércio, como vendedores ambulantes de pipoca, sorvete, etc), e portanto, achavam “estranho” até que alguns irmãos tivessem carro.

Após o discurso, fiquei para o estudo de A Sentinela. Em certo momento, o ancião superintendente-presidente (que tinha me convidado), ergueu a mão para comentar um dos parágrafos e disse mais ou menos assim:

“É irmãos, quando vier o Novo Mundo, quem é que vai ser realmente útil para Jeová? Não vai mais haver doenças, por isso os que hoje são médicos não terão mais nenhuma utilidade. Os que são advogados vão ficar sem ter o que fazer por que não haverá mais crimes e tribunais. Os que vão ser úteis são aqueles como NÓS aqui, que trabalhamos com enxada, para cultivar os alimentos no Novo Mundo; e os irmãos DAQUI, onde há muitos pedreiros para construir casas no paraíso terrestre. Esses é que vão ajudar e não esses irmãos RIQUINHOS da Aldeota (era um bairro de classe alta de Fortaleza).”

Era nítido na assistência o sentimento de satisfação com o comentário dado pelo seu Ancião-Coordenador.

Fiquei chocado com o desdém e o ressentimento que percebi nas palavras daquele a quem chamava de “irmão”, um co-ancião.

O que era aquilo? Onde estava, naquele instante, o sentimento de união e fraternidade que deveria imperar em todas as congregações do “povo de Jeová”?

Não diria que tal comentário local seria aprovado pela organização, mas certamente ele foi fruto da “guerra fria” contra as faculdades que por muito tempo caracterizou a organização da Torre e da incessante luta contra indícios de qualquer outra “influência materialista”. Nos últimos anos, isso não tem sido mais tão perceptível e muitos já comentam abertamente sobre vestibulares e faculdades – mas o traço psicológico ainda vai durar.

Para concluir, relato o que eu ouvi da boca de uma ex-pioneira regular. Ela é muito inteligente e instruída mas deixou de entrar para uma faculdade porque assim “aconselhava” a organização. Anos depois, quando assistia a mais um congresso de distrito, ela ouviu o anúncio para que todos os interessados no “serviço de Betel” comparecessem a uma reunião com o “representante da Sociedade”. Ela foi, e antes de a reunião começar, disseram que só deveriam ficar para a mesma aqueles que tivessem curso superior!

Que decepção sentiu aquela irmã ao retirar-se do local, desqualificada para ser betelita por ter seguido a recomendação da auto-proclamada “organização de Deus”! Hoje ela está fora da organização junto com o marido e o filho.

William (williamgadelha@yahoo.com.br) Whatsapp (85) 986124106

  • Por Paulo Franco: 

William,

Rapaz, que interessante “post” esse seu. Ele toca num aspecto muito interessante da “organização”, que são as regras não escritas. Enganam-se aqueles que buscam sempre algo nas publicações para compreender cabalmente a religião TJ. Existe todo um código de regras não-escritas que determinam o comportamento das Testemunhas.

Como você disse, a organização não mandou aquele ancião dizer aquilo. Mas por que ele o disse? Simples: porque a “Sociedade” o ensinou indiretamente a pensar daquele modo. “Que decepção sentiu aquela irmã ao retirar-se do local, desqualificada para ser betelita por ter seguido a recomendação da chamada “organização de Deus”! Simplesmente trágico! Quão triste!

William, seu post me trouxe à memória uma série de momentos da minha vida TJ jogada fora. Felizmente eu não obedeci a Torre do modo como a irmã acima, mas ainda assim é triste pensar quantas coisas nós jogamos fora; quanto tempo perdido!

Obrigado por compartilhar conosco esta “experiência”.

Valeu,
Paulo Franco.

Ainda sobre como esse grupo religioso promove sutilmente seu sistema particular de crenças (algumas “não-oficiais”), e também sobre os impactos deste nas mentes mais crédulas (no caso das Testemunhas, os de mentalidade mais “teocrática”), Raymond Franz, ex-membro do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, em seu segundo livro, “Em Busca da Liberdade Cristã”, capítulo 16, comenta com muita propriedade:

  • Raymond Franz:  

Quanto mais a fé da pessoa se fixa num sistema humano, seja qual for, menos espiritual se torna. Há homens que são muito “religiosos” e todavia não são essencialmente espirituais. São “homens de organização”, não homens de fé. Suas vidas podem estar cheias de atividades que lhe trazem aprovação e apoio da organização, e o poder que esse apoio provê. Se perdem o apoio da organização, sua aparente força desaparece com ele. Apesar de seu zelo por uma organização religiosa e seu crescimento e prosperidade, suas vidas podem mesmo assim ser “estéreis” nas coisas que trazem a aprovação de Deus e a Sua força ― estéreis quanto aos frutos do Seu Espírito em ações espontâneas, intimamente motivadas e impelidas pela fé, que são amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e autodomínio.

No mesmo ano em que saí da República Dominicana para integrar o pessoal da sede internacional, o presidente Knorr me designou como um dos quatro instrutores que dariam aulas especiais de um curso do “Ministério do Reino” a serem assistidas por superintendentes viajantes (de circuito e distrito) dos EUA As aulas tinham duração de duas semanas e os homens vinham em grupos sucessivos de cem. Fiquei surpreso de ver quão bem se pode conhecer cem homens em duas semanas de debates. E fiquei igualmente surpreso de perceber que de cada grupo, nunca encontrei mais que dois ou três homens que dessem evidência de entendimento profundo autêntico, perspicácia ou, mais seriamente, espiritualidade. Os outros 97 ou 98 eram basicamente “homens de empresa”, cujos “discursos de serviço” mostravam alguma habilidade oratória mas que tinham, em conteúdo, pouco nutriente espiritual, sendo geralmente pouco mais que discursos entusiastas, homens geralmente eficazes em “colocar” literatura às portas, e que em conhecimento estavam acima da média apenas por serem muito atualizados sobre as normas e regulamentos da Sociedade. Naquela época, eu próprio ainda era um crente firme, convencido de que fazia parte do único povo aprovado por Deus na terra. Todavia, lembro-me de dizer a mim mesmo: “Será realmente isto o melhor que podemos dar para ajudar nossos irmãos?”

O espírito mostrado ― em discursos, atitudes e ações ― pelos que depositam fé num sistema humano não é o celestial espírito de Deus; reflete uma fonte diferente, humana. Eles podem ser rápidos em punir qualquer desvio das normas ou dogmas da organização. Mas, se notarem erros sérios cometidos por sua própria organização religiosa, ou se reconhecerem falácias cruciais nos seus ensinos, não têm força íntima nem coragem para falar e defender o que é certo, nem para tomar o lado da verdade contra a injustiça. Em vez de produzir pessoas de integridade, sua confiança implícita e subserviência quase total a um sistema organizacional ― e o medo de perder sua aprovação ― converte-os em homens sem fibra. Se todos os do povo de Jeová dos tempos pré-cristãos tivessem sido assim, não teriam existido profetas de cujas vidas e palavras pudéssemos derivar força e confiança ao enfrentar provas de nossa fé em Deus, em vez de fontes humanas. Nem teriam existido apóstolos cristãos que — acusados de perturbar a paz da comunidade religiosa e minar a autoridade dos seus líderes ― permaneceram firmes perante o corpo governante religioso do seu povo e disseram: “Não podemos parar de falar das coisas que vimos e ouvimos… temos de obedecer a Deus como governante antes que aos homens.” Em tempos posteriores, não teriam existido relatos históricos de homens como Wycliffe, Tyndale, Servet, Huss, Valdo e outros, que puseram a consciência acima da submissão a uma autoridade religiosa e que prepararam o caminho, em maior ou menor grau, para certas liberdades que hoje usufruímos.

Não dizemos isto com espírito condenatório ou desprezo. A experiência pessoal me fez ver o efeito incapacitante causado pela fé numa organização, o efeito debilitante da subserviência à autoridade humana, a facilidade com que a preocupação de não perder o favor dessa autoridade pode sutilmente se infiltrar na mente. Não achei fácil libertar-me desses efeitos. Estou convicto de que a coragem natural não provê a força que se precisa. Pessoas enfrentaram grande perigo às mãos de opositores externos para serem leais à sua organização religiosa, e até arriscaram a vida em território inimigo em favor de concrentes da religião. Mas essa coragem por si só não garante proteção contra a covardia moral dentro dessa organização religiosa. Afinal, que sentido ou mérito há se um homem toma posição intransigente numa certa questão, talvez até passe algum tempo num campo de concentração por causa disso, e depois transige quando confrontado com uma questão paralela dentro de sua religião? Que importância genuína tem uma pessoa recusar envolver-se em conduta que encara como virtual idolatria a um Estado político, tendo fé nele e prestando-lhe lealdade quase cega, recusar fazer declarações que considera reconhecerem que a salvação está indissoluvelmente ligada a esse Estado, se ela depois participa em conduta que reflete virtual idolatria a um sistema religioso, tendo fé nele, e prestando-lhe lealdade quase cega a ponto de crer sua salvação está inquestionavelmente ligada a esse sistema? Nem todas as Testemunhas chegam a esse ponto, mas um número incrivelmente grande o faz, e a mensagem que recebem persistente e insistentemente os leva nessa direção.

Nenhum de nós tem razão para se vangloriar na sua própria força ou na força de um sistema humano. Era a fé em Deus, não a fé na organização nacional de Israel ou numa liderança humana, que distinguia os homens exemplares dos tempos bíblicos, cuja “fraqueza transformou-se em força”. Parece-me seguro dizer que a grande maioria dos adeptos da Torre de Vigia sabe como “seguir a multidão”, mas acharia difícil atuar espiritualmente à parte de um sistema humano. À parte dele, sentir-se-iam sem rumo, desorientados, sem real objetivo na vida e sem força para lutarem por ela. Se tivessem uma fé não adulterada, centrada totalmente em Deus em vez de amplamente centrada em homens, isso não aconteceria.